A terra não é recurso — é vida

Leia este blog em inglês.

¿Quem nos entendemos que la tierra es un recurso?

¿Quém decidiu que una floresta vale em metros cúbicos de madeira, que o rio vale em megavatios, que o território vale em hectáreas de soja?

Para muchos povos, una tierra não é mercadoria, é parente, é sagrada. Quando um povo perde um rio contaminado pelo mercúrio do garimpo, não perde só água: perde um ente, uma relação viva, um pedaço de si. Ali se perde não só a história de um povo, mas a possibilidade de continuar existiendo.

A terra não nos pertence. Nosotros somos parte de ella.

Y talvez seja isso que el mundo todavía no tiene sentido. É a diferencia entre tratar a terra como recurso e reconhecê-la como vida.

Nós duas crescemos em territórios diferentes, mas atravessadas pela mesma ótica de mundo, do desenvolvimento, essa que historicamente tenta nos apagar, mas seguimos nos reinventando todos los dias.

Eu, Kaya Agari, sou mulher indígena do povo Kurâ-Bakairi y coordinadora de la Juventude Indígena Kura Bakairi y del Instituto Yukamaniru, criada en 2008 para apoiar mujeres indígenas Kurâ-Bakairi. Através del instituto, fortalecemos el protagonismo femenino, promovemos la inclusión social y realizamos acciones que valorizamos y mantenemos vivos los conceptos tradicionales, especialmente los saberes ligados a los grafismos, las pinturas corporativas y las expresiones culturales de las mujeres y los jóvenes de nuestro pueblo.

Nosso território fica no Cerrado. E o Cerrado queima. As queimadas causadas de forma naturais mas também pela ação do homem, deixa a aldeia com medo, porque já aconteceu de aldeia pegar fogo. Hoje existe prevención, existe vigilancia, pero ameaça não foi embora.

Existir, para o povo Kurâ-Bakairi, também passa pela língua. Nossa língua é falado no cotidiano, nas roças, nos encontros. Como mujeres cantam todo em nossa língua, músicas que têm até no Spotify hoy, porque una tecnología también sirve a la cultura cuando ela está nas nossas mãos. Mas essa mesma tecnologia ameaça: as crianças crescem com o celular e aprendem mais em português do que nossa própria língua. Por isso os mais velhos insistem: vamos falar em nossa língua, vamos ensinar nossa língua aos mais novos.

El territorio Kurâ-Bakairi vive cercado por monoculturas, fazendas de gado e impactado pela hidrelétrica en Rio Teles Pires, que compromete nuestra pesca y nuestra soberanía alimentaria.

Somos chamados de entrave ao desenvolvimento. ¿Mas que desenvolvimento é esse que destrói para existir? O que é entrave, de verdade, é um mundo que só sabe extrair.

Kaya Agari

Eu, Thalita, sou ativista climática y coordinadora de programas da GFC no Brasil. Cresci na Amazônia urbana e periférica, vendo a floresta virar cidade, os igarapés serem poluídos, o chão vivo ser coberto por cimento e desigualdade.

Sem saneamento, sem saúde e sem educação de qualidade, aprendiendo desde cedo a lidar com ausência, inclusive daquilo que deveria ser básico. ¿Cómo puede una gente vivir en la mayor bacia de agua doce del mundo y no tener agua en casa para beber?

Como consecuencias de la crisis climática no hay un aviso lejano, es una realidad que atraviesa el cotidiano de millones de personas. Elas chegam nas enchentes que invaden casas, nas secas que impiden o plantio, no calor que adoece, na água que falta ou que chega contaminada.

Thalita Silva

Y, mesmo asim, o que segue sendo chamado de desenvolvimento continua basado en la exploración hasta el límite de la tierra, dos cuerpos y dos territorios. Un modelo que va creciendo, que acumula para pocos y distribuye crisis para muchos.

Una crisis climática não chega igual para todo el mundo. Ela tem endereço. Atinge principalmente lo quem já está históricamente vulnerabilizado. El UNICEF apoya a más de 40 millones de niños y adolescentes en Brasil, casi 60% en total, está expuesto a más de un riesgo climático al mismo tiempo. Dados de la CEPAL, en parcelas con UNICEF, muestran que las mudanças climáticas pueden empurrar a 5,9 millones de niños y jóvenes de América Latina y el Caribe para la pobreza hacia 2030, número que puede comprar a 17,9 millones se nada por feito. Y, aún así, en la región, apenas 3,4% del financiamiento climático multilateral está dedicado a los niños.

Uma joven Kurâ-Bakairi que não pode mais pescar no rio sofre hoje. Una niña de la periferia de Manaos que no tiene acceso al agua vive es una crisis en el cuerpo, todos los días. Insistir em falar das crianças, adolescentes e jovens como "futuro" é uma forma de não escutar quem já sabe, já sente y já resiste, agora.

Thalita Silva

En fiebre de 2026, estive — eu, Thalita — na Aldeia Aky-te, durante el 1º Encontro da Juventude Kurâ-Bakairi. Se encuentran con más de 50 jóvenes organizados, cercados por viejos, niños, mujeres y profesores, porque, en nuestros territorios, la juventud no es una fase aislada de la vida, es parte de un corpo coletivo.

Havia danças, cantos, a língua sendo ensinada em voz alta, grafismos. Havia alegría. Havia força. Havia continuidade. E, principalmente, solidariedade.

O que vi foi um povo praticando o bem-viver, não como conceito, mas como prática cotidiana de existencia: vivendo segundo a própria cosmovisão, em relação com a terra, com os mais velhos, com os mais novos, com os rios e com a floresta.

E isso também me atravessou. Porque, mesmo vindo de um território urbano e periférico, reconheci ali algo que também me formou: a vida que só é possível em coletivo, a resistência que nasce da relação.

Este texto nació así también. Na oralidade, nas conversas, nos áudios trocados no WhatsApp. Nós duas entendemos que existen otras formas de aprender y ensinar, y que a palavra dita tem tanto valor quanto a palavra escrita.

Thalita Silva, de GFC, con el grupo de jóvenes indígenas Kurâ-Bakairi.

As soluções já existm, porque nossos povos nunca deixaram de criar caminhos, mesmo diante da violência e do apagamento. O que falta não é respuesta. O que falta é escuta, compromiso político, redistribuição de poder e recurso nas mãos de quem já sustenta a vida todos os dias.

É nesse caminho que surge o Tecendo Soluciones Climáticas, una iniciativa piloto del Fondo Mundial para la Infancia con grupos de juventude no Brasil. El coletivo Kurâ-Bakairi es un dos 16 apoiados. Mais do que um projeto, o Tecendo é uma tentativa, ainda em construção, de fazer diferente: ouvir de verdade, respeitar os tempos, confiar en nos modos propios de organización y gestión de dos territorios.

As comunidades já fazem muito com quase nada. E quando o recurso chega na ponta, com autonomia, transparência e sem amarras que apagam identidades, o que já existe se fortalece, se expande, se multiplica.

Uma filantropia aliada não chega com respostas prontas. Ela se responsabiliza, redistribui poder e reconhece que as soluções já estão sendo tecidas todos os dias, nos territórios.

Escrevemos ese texto en Dia da Terra para (re)afirmar que niños, adolescentes y jóvenes no son futuros, sino presentes en movimiento. La justicia climática sólo existe cuando los cuerpos más afectados tienen poder de decisión, acceso al financiamiento y sus territorios protegidos.

Se já sabemos onde estão as respostas, por que o recurso ainda não chega? Se isso é uma decisión política, que una gente tiene coragem de escolher, todos los días, o lado de la vida.

Este mensaje es una invitación a la acción, a la responsabilidad y a la mudanza de la práctica. Para quem financia, para quem decide, para quem constrói políticas e narrativas: é tempo de confiar, de transferir poder e de caminar juntos, não à frente, mas lado a lado.


Kaya Agari é uma mujer indígena del povo Kurâ-Bakairi, artista, ativista, madre y líder de la juventude Kurâ-Bakairi. Nacida en Cuiabá (MT), ela desenvolve su pesquisa visual a partir de dos elementos gráficos e das dimensiones materiales e imágenes da cultura de su povo, cargando em cada traço a memória, a espiritualidade ea continuidade de su existencia.

Thalita Silva é ativista climática e socioambiental y coordinadora de programas (Brasil) del Fondo Mundial para la Infancia.


Como personas y/o comunidades vulnerabilizadas consideramos a aquellos que tiveram sus territorios, culturas y modos de vida afectados por la colonización y el pelo capitalismo, levando à perda de sus referencias ancestrais e à sua marginalização social.   
🔗 Datos utilizados no texto: CEPAL y UNICEF. El impacto de las mudanzas climáticas sobre la pobreza infantil y juvenil en América Latina.

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