O Brasil sedia a COP30 enquanto seus ativistas climáticos assistem de fora: Jovens da linha de frente expõem como a filantropia bloqueia soluções populares.

Novo estudo revela que as estruturas de financiamento colonial excluem sistematicamente comunidades indígenas, quilombolas e periféricas que lideram a ação climática no Brasil.

6 de novembro de 2025, Belém, Brasil — Enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP30, Fundo Global para Crianças Revela uma gritante contradição: enquanto jovens brasileiros de territórios indígenas, quilombolas e periféricos constroem soluções climáticas em suas comunidades diariamente, as estruturas de financiamento colonial os excluem sistematicamente dos recursos e espaços de tomada de decisão necessários para ampliar seu trabalho. A COP30 exemplifica essa crise — os jovens mais afetados pelas mudanças climáticas enfrentam inúmeras barreiras para participar da cúpula destinada a abordar o problema, desde os altos custos de viagem até a burocracia necessária para acessar o espaço oficial da conferência.

“Não se trata de um problema de capacidade, mas sim de um problema de energia”, disse. Thalita Silva, Coordenadora de Programas da iniciativa Justiça Climática e Juventude no Brasil do Fundo Global para Crianças“Jovens de territórios indígenas, quilombolas e periféricos enfrentam uma burocracia violenta e uma linguagem institucional que os exclui. O problema não é a sua capacidade — são os financiadores que não reconhecem o conhecimento oral, a espiritualidade e o cuidado comunitário como ações políticas legítimas.”

Segundo a pesquisa nacional JUMA, de 2023, 8 em cada 10 jovens brasileiros reconhecem que a crise climática afeta diretamente suas vidas por meio da deterioração da saúde mental, insegurança alimentar e sentimentos de desesperança. Os jovens já estão se organizando em prol da justiça climática, mas não conseguem acessar o apoio necessário.

Financiado pelo Fundo Global para Crianças,  Construindo Soluções Climáticas: Perspectivas da Juventude Brasileira sobre o Papel da Filantropia na Luta por Justiça é o primeiro estudo de mapeamento participativo do gênero: cocriado com 43 coletivos e organizações juvenis de todo o Brasil, apresenta tanto críticas contundentes quanto 21 recomendações detalhadas para como a filantropia deve mudar — desde a simplificação da prestação de contas até a remuneração justa pelo tempo dos ativistas, passando pelo apoio à saúde mental e à segurança dos ativistas.

Opiniões da juventude brasileira sobre o papel da filantropia:

  • Jovens de comunidades indígenas, quilombolas, negras e periféricas — particularmente mulheres — estão na vanguarda da luta por justiça climática, combinando conhecimento ancestral com inovação, mas enfrentam barreiras sistêmicas de financiamento.
  • O racismo ambiental estrutura o cotidiano nas periferias urbanas e em territórios tradicionais, mas são essas comunidades que lideram as soluções climáticas.
  • A terminologia técnica sobre o clima permanece inacessível, particularmente para jovens negros, aqueles de comunidades periféricas e jovens indígenas, criando barreiras à participação em espaços oficiais sobre o clima.
  • A luta climática é interseccional e inseparável da luta pela dignidade humana, enraizada na defesa da vida, da terra, da cultura e da ancestralidade.

“O Brasil sedia a COP30, mas os jovens brasileiros mais afetados pela crise climática não têm acesso aos espaços, recursos ou reconhecimento necessários para participar — e essa exclusão não se resume apenas a dinheiro, nem se limita a cúpulas”, explicou Silva. “Trata-se de poder — de quem decide o que é considerado conhecimento legítimo e cujas vozes são ouvidas na hora de formular soluções climáticas.”

Quando oferecemos subsídios com critérios acessíveis, a resposta esmagadora provou que o problema não é a falta de ação climática — é a falta de financiadores dispostos a redistribuir o poder e reconhecer soluções lideradas por jovens que já estão acontecendo nos territórios todos os dias.”

Silva cresceu na comunidade de Nova Floresta, em Manaus, onde a chuva gotejava pelo telhado e molhava as camas — uma lição precoce de racismo ambiental. Agora, Thali está criando um modelo de filantropia que parte dos territórios, e não é imposto a eles.

“Em vez de criar iniciativas prontas e impor formatos, começamos por perguntar: o que já existe nos territórios e como podemos fortalecê-los?”, disse Silva. “Ouvir também é uma forma de agir, e redistribuir o poder é, acima de tudo, um ato político.”

O estudo enfatiza que o acesso ao financiamento não é um detalhe operacional, mas uma questão de poder. Em um país onde o sistema econômico privilegia a acumulação em detrimento da reparação histórica, os recursos financeiros tornam-se uma condição de existência e resistência para os coletivos de jovens.

“A filantropia não pode permanecer neutra”, afirmou Silva. “Os jovens já estão agindo e construindo novas possibilidades que sustentam a vida. Investir neles é um compromisso político com a justiça climática e a reparação histórica.”

Chamada à ação! As 21 recomendações para financiadores e o setor filantrópico incluem:

  • Ajam como parceiros, não como controladores.
  • Fornecer financiamento flexível e direto, sem intermediários burocráticos.
  • Simplificar os requisitos de responsabilização para que sejam compatíveis com a realidade local.
  • Respeite o conhecimento territorial e os ritmos da comunidade.
  • Remunerem os ativistas de forma justa pelo seu tempo.
  • Apoiar o bem-estar, a saúde mental e a segurança dos ativistas.
  • Financiar formação política, aulas de inglês e participação em espaços relacionados ao clima.
  • Reconhecer a comunicação como parte da transformação social.

“Não buscamos falar para 'inspirar'”, disse Silva. “O que queremos é gerar reflexão e responsabilidade.”

Enquanto líderes mundiais se reúnem para a COP30, essas reflexões levantam questões urgentes: a filantropia e as partes interessadas permitirão que os jovens de territórios indígenas, quilombolas e periféricos, que estão desenvolvendo soluções climáticas, tenham acesso garantido a recursos e participação efetiva em espaços climáticos estratégicos? Ou o financiamento continuará a fluir para ONGs mais institucionalizadas, enquanto os coletivos de base — que detêm as soluções — permanecem excluídos tanto das cúpulas quanto do financiamento climático em andamento?

“Os jovens não estão pedindo permissão para liderar as soluções climáticas — eles já estão construindo-as”, concluiu Silva. “A questão é se a filantropia continuará bloqueando seu caminho ou começará a caminhar ao lado deles.”

O trabalho do Global Fund for Children em prol do clima em todo o Brasil recebe financiamento do Postcode Education Trust, graças aos fundos arrecadados pelos jogadores da People's Postcode Lottery.


FIM

Notas para os editores

Consultas da mídia: jenny@happypr.co.uk (Reino Unido) ou Nayara ncastiglioni@globalfundforchildren.org (Brasil)

Oportunidades na mídia:

O relatório completo, com 21 recomendações e materiais adicionais coletados na COP30, está disponível para download em: Kit de mídia da Weaving Climate Solutions.

Porta-vozes da GFC na COP30

Disponível para entrevistas, artigos de opinião, reuniões e/ou relatórios da COP30:

  • Thalita Silva, Coordenadora de Programas da iniciativa Justiça Climática e Juventude no Brasil da GFC – disponível para entrevista em português com interpretação em inglês.
  • Nayara Castiglioni Amaral, Oficial Sênior de Programas do Global Fund for Children, Brasil – disponível para entrevistas em português, inglês e espanhol.
  • Catarina Zavala – Vice-presidente adjunta de Programas do Global Fund for Children – disponível para entrevistas em espanhol e inglês.
  • Organizações parceiras a serem confirmadas
Eventos GFC @ COP30

Durante a COP30, a GFC e seus parceiros participarão da Marcha Global pelo Clima em Belém, no dia 15 de novembro, e estarão presentes em diversos painéis e eventos paralelos, incluindo:

Painel: “Juventude do Sul Global: Descolonizando o Financiamento Climático a partir da Base”

Casa do Sul Global – 19 de novembro, das 14h às 15h30 (horário local)

O painel discutirá como jovens do Sul Global estão descolonizando e transformando o financiamento climático, desafiando lógicas e estruturas de poder tradicionais. Com base em experiências concretas de fundos indígenas, comunitários e globais, bem como de organizações juvenis, a conversa abordará maneiras de redistribuir o poder, remover barreiras de acesso e colocar os jovens no centro da tomada de decisões.

Painel: “Juventude do Sul Global: Justiça Climática, Territórios e Transição Justa”

Casa das ONGs – 18 de novembro, 14h-15h30 (horário local)

A partir de perspectivas interseccionais de raça, gênero e território, o painel busca destacar o papel de liderança dos jovens do Sul Global no desenvolvimento de políticas e agendas climáticas transformadoras, bem como discutir a responsabilidade compartilhada da filantropia na busca por reparações históricas.

Diversos parceiros envolvidos neste projeto também participarão de painéis e mesas-redondas; mais detalhes em breve.

Sobre o Mapeamento Participativo Estudar:

Construindo Soluções Climáticas: Perspectivas da Juventude Brasileira sobre o Papel da Filantropia na Luta por Justiça O projeto foi desenvolvido por meio de mapeamento participativo com 43 organizações e coletivos juvenis em 17 estados brasileiros, além do Distrito Federal, representando todas as cinco regiões do Brasil. Viabilizado pelos participantes da Loteria Popular dos CEPs, o projeto foi cocriado com 43 grupos de jovens como coautores, representando comunidades indígenas, territórios quilombolas, periferias urbanas e contextos rurais da Amazônia ao litoral atlântico.

Sobre a Iniciativa Tecendo Soluções Climáticas:

A iniciativa apoia 16 coletivos de jovens em 10 estados brasileiros com financiamento flexível e baseado na confiança, e defende a justiça climática antes da COP30. O programa utiliza uma metodologia de “Escuta e Ação” que fortalece o que já existe nos territórios, em vez de impor soluções externas.

Tecendo Soluções Climáticas: Jovens pela Justiça Climática – Fundo Global para Crianças

Sobre o Fundo Global para Crianças:

O Global Fund for Children trabalha em colaboração com organizações comunitárias para garantir que crianças e jovens tenham acesso a uma vida digna, livre de violência e com seus direitos plenamente garantidos — incluindo o direito à participação e à cidadania ativa. www.fundoglobalparacrianças.org

O trabalho do Global Fund for Children em prol do clima em todo o Brasil recebe financiamento do Postcode Education Trust, graças aos fundos arrecadados pelos jogadores da People's Postcode Lottery.

Desde 2020, os jogadores da People's Postcode Lottery ajudaram a GFC a transformar a vida de milhares de crianças e jovens em todo o mundo.

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