Muros na Praia: Um Ensaio em Defesa das Fronteiras


Por Rodrigo Barraza García

Praias de Tijuana. A apenas 10 quilômetros do centro. Famílias tomando sol. Casais caminhando à beira-mar. Ao longe, algumas meninas constroem castelos de areia. Restaurantes. Hotéis. Felicidade. Vida.

E acima de tudo: um muro. Um muro que corta o oceano ao meio. Um muro que alcança o céu. Um muro imponente. Um muro que vê tudo. Um muro-farol.

Absurdo. Quase ridículo. Por que esse muro está no meio do mar? E o mais importante, para quem?

O muro como construção é inútil. Não faz sentido. Você pode simplesmente nadar, atravessá-lo e pronto — você está do outro lado. Mas, como símbolo, é extremamente poderoso. É impossível atravessá-lo.

O muro diz — grita — VOCÊ NÃO É BEM-VINDO. O muro separa sonhos de destinos. Vencedores de perdedores. Os escolhidos dos descartáveis.

Vida a partir da morte.

A parede sussurra para você todos os dias: você é perigoso, porque é diferente. Você é O OUTRO. Você não é como eu. Você nunca será como eu. Nem tente.

E sabe de uma coisa? Mesmo que você atravesse, você não está realmente aqui. Você veio do nada agora.

Em muitas ocasiões, e em resposta a tanta dor e injustiça, organizações, doadores e outros atores sociais costumam repetir este mantra: DIGA NÃO ÀS FRONTEIRAS. AS FRONTEIRAS NÃO DEVEM EXISTIR.

Mas … Por que não?

Estamos acostumados a ver as fronteiras como zonas de separação. Espaços de morte. Lugares de segregação. Pensamos nas fronteiras como a materialização de um apartheid global.

E é verdade. É isso que os poderosos fizeram com as fronteiras. E é isso que eles querem que acreditemos. Que fronteiras são muros — muros por dentro e por fora. Muros por toda parte. Até na praia.

Mas e se começarmos a pensar nas fronteiras como espaços de encontro? Lugares onde as diferenças nos enriquecem como seres humanos? Espaços de vida, de criação, de alegria?

Sempre gostei de cruzar fronteiras. Isso me enche de admiração e humildade.

Cruzar uma fronteira me lembra que não estou sozinha no mundo. Que meus problemas não são os mais importantes. Isso me ajuda a sair de mim mesma e a ouvir.

Cruzar uma fronteira nos permite olhar nos olhos uns dos outros. Nos permite admirar — só um pouquinho — esse imenso arco-íris, essa multiplicidade de cores, de emoções, de sensações, que é a vida humana. E, nesse sentido, podemos entender as fronteiras como lugares de reinvenção e recuperação da nossa própria humanidade.

Cruzar uma fronteira — se você souber como fazê-lo — é como abraçar alguém. É reconhecer o diferente. E é se reconhecer nessa diferença. É dizer: "Você não é como eu, e tudo bem. Você não precisa ser como eu para ser meu irmão ou irmã. E eu posso aprender muito com você e com a sua maneira de ver a vida e o amor. E eu quero aprender. Estou pronto."

Neste momento, existem milhares de organizações, meninas, mulheres, migrantes, pessoas da comunidade LGBTQ, sonhadores, pessoas trans, ativistas, comunicadores, artistas e muitos mais, tentando recuperar e transformar as fronteiras.

Cuidar dos outros. Construir pontes de amor e compreensão.

Não há muro que possam construir contra isso.

 

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