Justiça de gênero, Segurança e bem-estar, Poder da juventude

Por que a migração requer soluções locais (e coletivas)


Por Rodrigo Barraza García

Nota do editor: De 2 a 4 de maio, o Fundo Global para a Infância realizará uma segunda reunião com mais de 20 organizações que trabalham para proteger migrantes, refugiados e requerentes de asilo. O evento, que acontecerá em Quetzaltenango, Guatemala, será coorganizado pelo Coletivo Vida Digna, parceiro do Fundo Global para a Infância, que apresentará uma análise aprofundada da importância de uma abordagem regional para migração, gênero e infância.

P: ANTES DE SABERMOS MAIS SOBRE O GRANDE EVENTO DA PRÓXIMA SEMANA, VOCÊ PODE NOS CONTAR MAIS SOBRE O TRABALHO QUE O COLECTIVO VIDA DIGNA ESTÁ FAZENDO PARA PROTEGER ADOLESCENTES MIGRANTES?

Coletivo Vida Digna:  Vida Digna é uma organização maia localizada no planalto ocidental de Quetzaltenango, Guatemala, dedicada à afirmação de identidades indígenas em contextos de alta migração. A Vida Digna apoia jovens, mulheres e famílias do campo a desenvolverem seu potencial e a apoiarem o crescimento de suas comunidades.

Reconhecemos que, tradicionalmente, as mulheres indígenas sofrem múltiplas vulnerabilidades: por serem indígenas, por serem pobres, por serem mulheres, por serem jovens. E isso as obriga a migrar. A Vida Digna quer mudar isso. E por isso, criamos a Projeto Ix Kame.

Projetado para meninas e jovens migrantes, o Projeto Ix Kame da Vida Digna enfatiza a força das mulheres maias. O programa fortalece as capacidades das participantes e cria um círculo de apoio que reconhece sua cultura e a importância da comunicação para o desenvolvimento familiar.

[image_caption caption=”Jovens participantes do projeto Ix Kame da Vida Digna. © Colectivo Vida Digna” float=””]

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P: EM 2018, A GFC ORGANIZOU SUA PRIMEIRA REUNIÃO DE PARCEIROS EM TAPACHULA, MÉXICO, CHAMADA "UNITING BORDERS FOR MIGRANTS GIRLS" (UNIR FRONTEIRAS PARA MENINAS MIGRANTES). COMO FOI SUA EXPERIÊNCIA NESSE EVENTO? QUAIS FORAM SEUS PRINCIPAIS APRENDIZADOS?

Coletivo Vida Digna: Aprendemos, em primeiro lugar, que a migração é um universo muito complexo. Existem múltiplas perspectivas e abordagens sobre a migração, o que muitas vezes dificulta o nosso trabalho. Mas também aprendemos que esses esforços podem ser conciliados. Foi muito inspirador conhecer as ideias e os pontos fortes de organizações no México, Guatemala e Estados Unidos que – embora muito diferentes entre si – estão fazendo um excelente trabalho para dignificar a vida de pessoas migrantes em toda a região.

Aprendemos que não estamos sozinhos. E que, apesar da violência, do desespero, da frustração, estamos mudando o mundo passo a passo.

P: O QUE MELHOROU OU MUDOU NO COLECTIVO VIDA DIGA COMO RESULTADO DA REUNIÃO?

Coletivo Vida Digna: Nossa organização cresceu muito por meio de alianças estratégicas com outras organizações fora da Guatemala. Agora, por exemplo, estamos trabalhando mais de perto com a Al Otro Lado, uma organização sediada em Tijuana, México, e com eles estamos tentando criar uma rede para o atendimento integral de retornados e deportados. Na Al Otro Lado, eles apoiam com assistência jurídica e garantem um retorno seguro, enquanto nós, por outro lado, cuidamos dos desafios relacionados à reintegração dos retornados. Agora temos uma visão mais ampla.

Também crescemos fortalecendo nossa perspectiva de gênero. Percebemos que não basta ter projetos específicos para mulheres, mas é preciso envolver famílias e comunidades inteiras para gerar relacionamentos justos e não violentos entre homens e mulheres.

P: COMO PARCEIRO DO GFC E TAMBÉM COMO CO-ANFITRIÃO DESTE ENCONTRO, QUAIS SÃO SUAS EXPECTATIVAS PARA ESTE NOVO ENCONTRO NA GUATEMALA?

Coletivo Vida Digna:  Primeiro, queremos que as organizações conheçam e apreciem Xela (como Quetzaltenango é comumente conhecido).

Em nosso primeira convocação em Tapachula, olhamos umas para as outras como organizações e descobrimos que, apesar das nossas diferenças geográficas e culturais, compartilhamos sonhos, frustrações e estratégias. Agora sabemos que temos muito a aprender umas com as outras. Para este novo encontro, queremos olhar para as adolescentes migrantes e aprender a caminhar e trabalhar com elas. Elas não são apenas vítimas, mas protagonistas com a capacidade de contar a sua própria história. Elas têm muito a contribuir para a vida e o trabalho das nossas organizações.

Além disso, queremos ajudar a construir uma plataforma aberta para que as organizações possam compartilhar seus progressos, desafios e experiências trabalhando com meninas migrantes. E, a partir daí, todas as organizações participantes precisam assumir a responsabilidade de disseminar a mensagem, replicar e fortalecer nossos esforços.

Como resultado concreto, gostaria que cada organização se comprometesse a pensar em uma atividade ou iniciativa em conjunto com outra organização. Não queremos que a energia gerada no evento acabe quando todos voltarem para casa. Pelo contrário, queremos que esta seja a chama que acenda novas ideias e sonhos coletivos.

P: CONTE-NOS SOBRE QUETZALTENANGO, ONDE A CONVENÇÃO ACONTECERÁ.

Coletivo Vida Digna:  Estamos muito felizes que nossos parceiros possam estar em Xela, porque existe um grande equívoco que nós, como organizações, às vezes somos responsáveis por generalizar: que a migração só ocorre nas fronteiras. E que migrantes são apenas aqueles que caminham no deserto ou navegam no mar. Aqueles que não têm mais um território. E isso não é verdade.

A migração também tem a ver com territórios, com identidades, com pertencimentos. Não deixamos de pertencer pelo simples fato de deixarmos nossa comunidade.

Xela não fica perto da fronteira. Mesmo assim, é um dos departamentos com maior índice de migração na Guatemala. Milhares de pessoas partem e retornam sem identidade, sem memória. Principalmente jovens.

É por isso que Xela é um bom lugar para entender que a migração começa e termina nos territórios. E não devemos olhar apenas para as pessoas vulneráveis a quem devemos atender, mas também para os lugares a serem melhorados, criando novas oportunidades e fortalecendo a memória histórica do nosso povo.

P: ALGUMA MENSAGEM FINAL PARA AS ORGANIZAÇÕES QUE PARTICIPARÃO DA REUNIÃO?

Coletivo Vida Digna: Bem-vindos à Xela! Vocês agora são nossos irmãos e irmãs e é um prazer colaborar com todos vocês. Por favor, não se esqueçam de que sonhar juntos é uma responsabilidade.

Estamos felizes em ter você aqui para continuar construindo um caminho cheio de esperança e oportunidades.

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