Justiça de gênero, Segurança e bem-estar, Poder da juventude

Na Fronteira, uma Infância de Idas e Vindas


Por Rodrigo Barraza García

Enquanto procurava novos parceiros para a GFC, Rodrigo Barraza Garcia conheceu "Mari", que trabalha como trabalhadora migrante desde os 12 anos. Esta é a história dela.

Nasci na Guatemala, num lugar chamado San José Ojetenam. Tem suas montanhas, sua pequena floresta... É lindo, acredite em mim.

Lá somos todos pobres. É o que é.

Eu cruzo o México desde pequena. Sempre indo e vindo. Meu pai trabalhou por muitos anos nas plantações de café em Tapachula. A família inteira trabalhava lá. Até os pequenos. Ficávamos lá dois ou três meses por ano.

A travessia foi muito fácil. Você simplesmente andava um pouco morro acima e logo estava do outro lado. Fácil.

Às vezes você nem percebia que tinha chegado. Era preciso perguntar.

Eu era responsável pelos meus irmãozinhos. Eu os carregava no colo. Eu tinha que cuidar deles, porque eram tão pequenos.

Então, imediatamente, fui trabalhar para cortar café. Trabalhei desde cedo, quando ainda estava escuro, até a noite. De sol a sol, como dizem.

O trabalho era muito pesado. Muitas vezes, tive vontade de chorar, de voltar. Mas não consigo.

Dormíamos todos juntos, oito num quarto... muito quente, cheio de vapor, com mosquitos. Muitas noites não consegui dormir, para ser sincero. Ninguém conseguia.

Deveríamos receber metade do salário de adulto, mas nunca me deram nada. Não sei se meu pai recebeu. Vai saber.

Antigamente, a estrada não era tão perigosa. O governo não prendia ninguém, não havia tanto perigo. Agora tem muita gente má querendo te machucar. E outras coisas piores.

Agora a polícia pede documentos para tudo. Para atravessar, para trabalhar... Ainda não sei por que eles querem um documento bobo. Uma boa pessoa é uma boa pessoa. Fim da história.

Faz uns 14 anos desde que atravessei o rio sozinha pela primeira vez. Agora estou sempre indo e vindo. Limpando casas, desde os 12 anos. Primeiro, meu pai me levou. "Você tem que ajudar a sua família", ele me disse. Ele estava velho demais e não podia mais trabalhar nas plantações. E não tínhamos dinheiro.

Agora tenho 26 anos e continuo na ativa. Para ajudar meus irmãos e irmãs mais novos. Quero que eles estudem, que tenham um bom emprego. Não quero que sejam como eu.

Você sofre neste trabalho, acredite. Você tem chefes que gritam com você, que te batem. Alguns deles querem te tocar. Mas eu nunca deixo.

Eles riem de você se você fala sua língua nativa. Se você não sabe usar aparelhos elétricos. Eles riem se você está cansado. "Mas você só limpa, não seja preguiçoso", eles dizem.

E você não pode sair. Você vive trancado. Como numa prisão. E trabalhando de sol a sol. Como nas plantações de café. Nada mudou.

Às vezes penso que só vim ao mundo para sofrer. Mas aí lembro que estou fazendo isso pela minha família e me sinto forte.

E eu continuo indo e vindo. O que eu vou fazer? San José é bonita, mas é impossível encontrar emprego lá. E meus pais não queriam que eu estudasse. Porque eu sou mulher. Mas eu não deixo que façam o mesmo com minhas irmãzinhas.

Sei que um dia vou parar de ir e vir. Estou só esperando meus irmãos terminarem os estudos. Porque não quero que eles sejam como eu.

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