Justiça de gênero

Masculinidade moderna: um conto de dois Jamies

ALERTA DE SPOILER: este blog se aprofunda na trama de Adolescência da Netflix.

A masculinidade esteve sob o microscópio esta semana. A série da Netflix Adolescência, um drama em quatro partes de Stephen Graham e Jack Thorne, trouxe o tema à consciência nacional. A série começa com Jamie, de 13 anos, preso e posteriormente acusado do assassinato de sua colega de classe Katie.

Não há dúvidas se ele cometeu o crime ou não. O primeiro episódio termina com Jamie e seu pai (Stephen Graham) sendo confrontados por imagens de câmeras de segurança que mostram Jamie esfaqueando Katie repetidamente em um estacionamento perto da escola.

Stephen Graham como Eddie Miller e Owen Cooper como Jamie Miller, em Adolescência. ©Netflix

A incerteza gira em torno da questão de por que ele fez isso. Ele não tem motivo aparente para machucar Katie, e seus amigos não oferecem nenhuma informação. Seus pais são amorosos e presentes, ainda que um pouco desconectados do cotidiano de Jamie, porque o criador Stephen Graham disse que era importante não dar uma resposta fácil – nada de pai abusivo ou mãe alcoólatra.

Você sabe o que seus filhos estão fazendo online?

Para descobrir o motivo do ataque, os detetives precisam decifrar o mundo impenetrável das redes sociais adolescentes. Katie acusou Jamie de ser um incel (celibatário involuntário) por meio de emojis cuidadosamente selecionados nos comentários de suas postagens. A pílula vermelha, a dinamite, o feijão, o 100 – até mesmo a cor do coração que você escolher pode ter um significado oculto.

No episódio final, vemos o impacto contínuo na família de Jamie 13 meses após sua prisão. Seus pais se questionam, questionam seu estilo parental e questionam como conseguiram criar um assassino. Eles se lembram de Jamie se tornando retraído e passando o tempo todo sozinho no quarto, com o computador. "Achávamos que ele estava seguro lá dentro."

Christine Tremarco como Manda Miller e Stephen Graham como Eddie Miller em Adolescência. © Netflix

Mas Jamie não estava seguro, estava sendo influenciado, até mesmo radicalizado. Em conversas com o psicólogo clínico, ele repete ideologias absorvidas da "manosfera". Influenciadores como Andrew Tate convenceram Jamie de que o mundo está contra ele: 80% de mulheres se sentem atraídas por 20% de homens (daí o emoji de 100).

Jamie explica que, por ser feio, precisa enganar as mulheres para que gostem dele. Ele convidou Katie para sair quando achou que ela seria fraca o suficiente para aceitar seus avanços, porque uma foto de topless que ela enviou para um garoto de quem gostava havia circulado pela escola.

As explosões repentinas de violência de Jamie contrastam com o adolescente vulnerável e assustado que vemos em outros momentos. Com o terapeuta indicado pelo tribunal, em um momento ele está envolvido e aprecia um chocolate quente com marshmallows, seguido no outro por explosões físicas e raivosas, depois emocionalmente fechado, depois agressivo, zombando da conexão, do amor e perguntando se ela o acha feio. Ficamos sem saber quem é o verdadeiro Jamie, e temos certeza de que ele tem pouca ou nenhuma compreensão disso também. Ele está claramente apavorado sobre onde está e como chegou lá, mas demonstrar isso seria impensável. Ele é um garoto que sofreu lavagem cerebral por pessoas que ele via como modelos ou um jovem capaz de violência extrema? A resposta pode ser ambas?

As mídias sociais também podem apresentar modelos positivos de masculinidade

Outro Jamie que marcou presença constante nas redes sociais esta semana. Jamie Laing, ex-estrela de Made in Chelsea, correu 5 ultramaratonas para arrecadar fundos para a Comic Relief. Em uma série de entrevistas e videoclipes para a BBC Radio One ao longo do caminho, Jamie se mostrou aberta e vulnerável sobre o quão difícil o desafio foi, tanto física quanto mentalmente.

Ele chorou de felicidade e de dor ao compartilhar os altos e baixos de sua experiência. Ele também enfatizou repetidamente a importância de falar sobre como você está se sentindo. Jamie admitiu francamente que receber apoio de amigos e desconhecidos em todo o país enquanto corria o ajudou a completar seu desafio. Ser aberto e permitir que os outros vissem sua vulnerabilidade foi fundamental.

Então, precisamos proibir a internet?

A resposta ao livro "Adolescência" foi generalizada. Keir Starmer elogiou-o no Parlamento e o coautor Jack Thorne participou do Question Time discutindo propostas para a proibição de smartphones nas escolas e uma era digital de consentimento.

Mas o que falta no debate são as vozes dos jovens e o papel da comunidade, da conexão e da esperança na vida de meninos e jovens. O Fundo Global para a Infância está comprometido com uma abordagem liderada por jovens. Estamos apoiando organizações comunitárias para que trabalhem com meninos e jovens na reinvenção da masculinidade.

A internet e as mídias sociais não são inimigas em si. Precisamos estar cientes de quais vozes estão sendo ouvidas e o que elas estão dizendo. O desenvolvimento emocional saudável só pode acontecer por meio de conversas e vulnerabilidade. Nossos parceiros, como o Warren Youth Project em Hull, o Haven em Sheffield, o Juvenis e o YOH em Londres, e o Breaking the Silence em Bradford, estão oferecendo essa oportunidade em todo o país.

Fundo Global para a Infância Masculinidades Saudáveis O trabalho, em parceria com a People's Postcode Lottery e o National Lottery Community Fund, tem como objetivo criar espaços para meninos e jovens se abrirem e se expressarem.

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